Fotos por escrito

Caroline Rodrigues

PERU - Sentada sobre uma pedra, no alto de uma das montanhas de Machu Picchu, percorro com o olhar cada detalhe das ruínas mais abaixo de onde estou. Pessoas passam pelas trilhas de terra forçadas pelos pés constantes sobre a grama. Mais à frente, uma montanha ainda maior, enquanto o nada se esconde dentro das crateras ao lado. Choro feito criança.

RIO DE JANEIRO – Posicionada no início da escadaria Selaron, a menina espera que tirem sua foto, enquanto a mãe atira seu espanhol para segurar a horda de turistas. Eles, parados no vão improvisado pela mulher, esperam com paciência as fotos perfeitas serem sacadas. Depois dos cliques, elas descem as escadas. Nenhuma delas chegou ao topo da escadaria e posso assegurar que também não olharam para nenhum dos azulejos nas paredes. Mas as redes sociais estão garantidas.

CAMBORIU (excursão 2º grau) - Eu e minhas duas melhores amigas da turma caminhamos no calçadão da beira-mar. Em um quiosque, uma mulher de cabelos curtos, vestindo bermudas e camiseta largas, está com um dos pés sobre um banquinho. Sinto o olhar dela em nós e, quando me viro, recebo uma piscada de olho, um beijinho discreto e um sorriso convidativo. A inesquecível primeira cantada.

RUTA 9 (URUGUAI) - Minhas mãos seguram o volante. A mão esquerda do meu namorado pousa sobre meu ombro. O rádio toca uma música uruguaia. Hélices brancas dos campos que colhem ventos se movem lentamente e os verdes das plantações parecem voar aos lados, pelas janelas. No céu, nuvens carregadas e escuras formam uma barreira que se move de encontro ao carro, enquanto luzes piscam dentro delas. O olhar dele no meu me assegura: podemos prosseguir em qualquer tempo.

LONDRES – Sem muito dinheiro, procuro um lugar para almoçar. Acho um restaurante no qual as pessoas pegam suas comidas de prateleiras e geladeiras encostadas na parede, pagam no caixa e sentam onde houver lugar numa das longas mesas coletivas. Estou comendo meu sanduíche e um casal se senta na minha frente. Eles conversam sem pudores sobre todo tipo de assunto sem imaginar que sou brasileira e consigo entender português, mesmo sendo de Portugal.


Texto escrito durante o Curso Livre de Formação de Escritores da Metamorfose, numa atividade proposta pelo professor Rubem Penz, e inspirado por um texto de Luiz Ruffato, chamado “Legendas para fotos que não fiz” (disponível aqui).

 

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"Fiquei muito satisfeito com o conteúdo da Oficina. Minha experiência com escrita, agora vejo com maior clareza, era inteiramente prática ou intuitiva e, certamente, passível de ser substancialmente melhorada. Gostei muito da orientação obtida através da Oficina e, em particular, da tua avaliação do material dos desafios."

Décio Oliveira Elias,
Rio de Janeiro, RJ

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