As mudanças que construiremos

Maurem Kayna

O país está em polvorosa, mais uma vez. Tem estado assim há meses, cada dia cheio de combustíveis variados nutrindo tensões improdutivas ao ponto de tornarem-se quase banais para muitos. E por isso mesmo vou ignorar a “bomba” do momento, não acho que venha a detonar.

Concentro-me, então em continuar a provocação que fiz no começo do ano quando falei das possibilidades de ação que vislumbrava para cada um nós. Acreditando que compartilhar experiências positivas pode inspirar outras ações, contei da mobilização dos coletivos literários de Guaíba que entre muitas outras ações, culminou na publicação de um livro coletivo e, modéstia muito à parte, caprichado.

Dessa vez quero falar de outra iniciativa sobre a qual até já comentei aqui, mas quando ainda tinha outra dimensão. O Clube de Leitura Leia Mulheres começou pela garra de três mulheres incríveis, inspiradas pela autora Joanna Walsh e sua provocação #readwomen2014. Em Porto Alegre, nos encontramos mensalmente desde agosto de 2015 e acho que vale a pena contar também que nesses quatro anos a ideia se espalhou por mais de cem cidades brasileiras e está acontecendo também em Portugal; que somos mais de trezentas mediadoras envolvidas; que só no RS os clubes acontecem em doze municípios; e que nas contas que fizemos no aniversário do primeiro clube, em março, mais de 3 mil livros escritos por mulheres haviam sido objeto de conversa nesses clubes de leitura.

Ok, e o que isso tem a ver com mudanças e/ou com o poder dos indivíduos em uma sociedade qualquer? Tudo. A motivação de Joanna Walsh e das Julianas e da Michele, da coordenação do Leia Mulheres, foi a desigualdade de espaço ocupado por mulheres e homens em publicações, resenhas, estantes de livraria, prêmios literários e tudo mais que diz respeito ao mercado literário. Essas mulheres foram além da denúncia (que continua necessária porque muita gente não percebe isso nem mesmo na sua rotina como leitor/a), elas agiram e as suas ações inspiraram outras mulheres a fazer o mesmo. Foi isso que gerou esse movimento importante ao longo dos últimos quatro anos.

Não tenho estatísticas ou publicações acadêmicas para comprovar, mas meus olhos e ouvidos atentos às listas de mais vendidos e das participações em eventos literários e, mais importante, ao meu próprio cardápio e leitura, mudaram desde então.

Baseada nessa experiência (e em outras) insisto em acreditar que essa mesma lógica pode ser aplicada para problemas de vulto como o uso insustentável de recursos naturais do planeta e os danos causados por preconceitos que parecem recrudescer em nossos dias. Por isso concentro parte de minha energia nesses movimentos celebro essas vitórias que se pode colher ao mesmo tempo que alerto para a necessidade de estar conscientes de que elas precisam de nossa atenção permanente para que não desmoronem como várias coisas que julgávamos resolvidas e de repente voltam a assombrar.

 

Comentários:

Parabéns pelo texto.
Adorei lê-lo, de te-lo escolhido pelo titulo e de ser surpreendida por um ativismo consciente do tripé que me norteia também: respeito à vida da natureza, respeito ao conhecimento e respeito à luta por nossa voz.
Gostaria de ter informações sobre o Leia Mulheres aqui em são paulo. Agradeço, Liliana
liliana m rodrigues, São Paulo 09/08/2019 - 22:45

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