Sobre a poesia que chega pelos Correios

Dinarte Albuquerque Filho

Pelos Correios, chegam novos livros. De poesia. Que não se divulga e se avoluma apenas pelos meios virtuais. Um deles vem de longe, do Nordeste. “A guardadora da ponte e outras biografias inventadas”, do catarinense Rubens da Cunha, poeta que conheci em uma live interativa sobre poesia – outra característica do tempo emergencial em que vivemos.

O livro tem 52 páginas e já encanta em sua apresentação gráfica, cuidadosa e artesanal, em tiragem limitada de 150 exemplares feitos pela Andarilha Edições, de Conceição da Feira, na Bahia, onde hoje o poeta mora e leciona na Universidade Federal do Recôncavo.

É o oitavo livro de Rubens: o primeiro foi publicado em 2001, “Campo Avesso”, o anterior a este que tenho em mãos, de 2015, “Curral”, foi vencedor do Concurso Cruz e Sousa (promovido pela Editora da UFSC) em 2014. Tenho em mãos esta delicadeza, que tem projeto gráfico de Deisiane Barbosa e ilustrações de Fernanda Asteracea – sutis intervenções.

Os dois últimos versos do poema que abre o livro, e que faz referência direta ao lugar em que o poeta se encontra, são um prenúncio do que virá dali por diante: “já não me importo / de acontecer”.

E assim parece ser; ao longo do livro, a narrativa poética de Rubens “acontece” no encontro com tipos do cotidiano e paisagens urbanas e naturais do Recôncavo Baiano, “sendo manhã, calor, trabalho”.

Personagens como Tonho e Anilda (uma onça?), Alzira, a leitora de mãos – que é muda –, ou Elza, a vendedora de caranguejos, passeiam com Rubens pelas ruas da cidade “fazendo” poesia a partir de suas misérias e estranhamentos, com leveza e encanto. E é nas ruas de Salvador, junto à feira livre e aos rios Subaé e Paraguaçu, que a poesia de Rubens flui, e reflete “um ou outro medo/ e toda a solidão”.

Ao terminar de ler “A guardadora da ponte”, a sensação é parecida – imagino – como a de Adélia Moreira ao atravessá-la: há um novo amanhecer depois da travessia.

***

De um Nordeste mais próximo, o da Serra gaúcha, chegam livros de Douglas Ceccagno: um de contos, “Ópera subterrânea”, de 2018, um de poesias, “Rábula”, de 2015.

A poesia de Douglas já se apresentara em 2006, com a edição da antologia “Calendário”, do Grupo Neblina – ele mais Marli Tasca, João Claudio Arendt e Clóvis Da Rolt. Em “Rábula”, há um tom melancólico e irônico (também faz eco nos dias de hoje), e não é preciso ter lido a apresentação feita por Atilio Bergamini, basta folhear o livro.

Ao virar as páginas iniciais do livro nasceu um sentimento contraditório: seguir ou desistir. Para seguir, é preciso reler poema por poema; não que eles sejam indecifráveis, herméticos ou o que seja. Na verdade, os versos deslizam sob o olhar-leitor, mas a cabeça precisa de um tempo para assimilar/contextualizar o que o poeta tem a dizer, a partir de seu distanciamento social poético: “eu sou alheio/ minhas sobras não desfazem em templos/ e tenho meus próprios cadáveres para dar colo”.

Mesmo apartado do convívio (“nossa ambição é mais humana/ tão humana que é divina”), Douglas clama pelo coletivo, mesmo que de um lugar que só ele sabe onde fica (“só lutando juntos mesmo por vários motivos/ é que um dia impediremos que impeçam os nossos gritos”).

Sim, há melancolia em todas as páginas, até uma certa desesperança. Mas como não sentir-se assim – talvez o ano que chegue ao fim seja o ápice, um deles, de uma sobrecarga que só as almas sensíveis vinham percebendo. Mas não dá para desistir, nem da vida nem da leitura.

Rábula tem significados pejorativos, seja quando é entendido como um “advogado que usa de ardis” como quando indica um “advogado muito falador, porém de poucos conhecimentos”. As poesias de Douglas transitam por esses conceitos – às vezes reconduz o leitor ao início do livro, como se o último verso lido fizesse parte do primeiro verso escrito, às vezes provoca desconforto, dada à torrente de versos, que se encaixam e conduzem a reflexão sobre a ordem das coisas. Mas que vão além.

Diz-se que o poeta tem essa habilidade – a de estar conectado aos acontecimentos humanos, dos mais felizes aos mais trágicos. A crítica à modernidade (“engulam seus celulares máquinas fotográficas/ cérebros contaminados pelo vírus da última geração”) convive pacificamente (será?) com fortes doses de lirismo – dark e carnal, sim – que descontroi o romantismo fácil dos amores nas fotografias e reconhece nas pessoas uma “doméstica criatura escravizada pelo tempo”. Resistência e continuidade, mesmo que seja necessário um pouco de dureza: “um mundo novo – sempre novo e antigo –/ de cantigas prenhes e armas carregadas”.

Envolvido pela leitura, me uno aos personagens descritos no poema que abre o livro e pergunto: e aí, como vai a vida?

***

Por dez anos, Rubens foi cronista do jornal A Notícia, de Joinville – essas escritas estão reunidas em “Aço e nada”, de 2007, e em “Breves exercícios para fugitivos”, de 2016. Publicou, ainda, o infantojuvenil “Crônicas de Gatos” (2010), com ilustrações da artista plástica Regina Marcis, e o livro-objeto “Vertebrais”, em parceria com cinco artistas plásticos de Joinvile, pela Fundação Joinvilense de Cultura, em 2008.

Douglas Ceccagno é doutor em Literatura (PUC-RS) e professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS); é ator profissional, pesquisador e autor de uma comédia curta e de um monólogo. Foi homenageado na 34ª Feira do Livro de Bento Gonçalves, em 2019, mesmo ano em que ministrou uma oficina no curso de criação ficcional no Projeto Contantes (contemplado pelo Fundo Municipal de Cultura), que resultou na antologia de contos “Nem tudo foi dito”, também em 2019.

Ambos, se procurados, podem ser encontrados na internet.

 

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