Stoner, de John Williams

Aletheia de Almeida

Demorei um pouco para escrever sobre Stoner, de John Williams; tanto que aquele sentimento de perda irreparável pelo fim de uma leitura cativante sumiu quase que por completo a essa altura... Uma pena... Gosto de escrever assim que finalizo uma leitura, principalmente quando a leitura termina em choro, em choro copioso. Relutei um pouco em escrever, também, porque parece que tudo já foi dito sobre Stoner. Fui impelida a deixar meu modesto registro, no entanto, diante da narrativa tão elegantemente escrita e da incrível e oscilante história acerca deste livro e da fama de seu autor.

Publicado pela primeira vez em 1965, Stoner foi recebido sem grande alarde, tendo vendido apenas 2000 cópias nos EUA e merecido pouco destaque mesmo nas revistas especializadas, naquele momento. Ficou esquecido até 2003, quando foi republicado pela Vintage; e, em 2006, pela New York Review of Books, tendo gozado, então, de um sucesso bem mais significativo, conquistando adeptos apaixonados tanto nos EUA, quanto na Europa --- no Velho Continente, principalmente após a tradução de 2011 para o francês, feita pela romancista Anna Gavalda. No Brasil, chegou apenas em 2015, com uma edição da Rádio Londres, do Rio de Janeiro, que, parece, contava com muitos erros de revisão. Até finalmente, chegarmos a uma nova reimpressão primorosa de 2016 que saiu por essa mesma Rádio Londres, com posfácio de Peter Cameron.

Ao me deparar com essa edição de Stoner, apenas me apaixonei pela tranquilidade do rosto na capa. Trata-se de um romance singelo sobre um homem comum. A escrita é direta, límpida, envolvente e elegante. John Williams, um professor da Universidade de Denver, parece revelar-se por meio de William Stoner, um anti-herói – ou um alter ego, como muitos dizem. Stoner é filho de agricultores que vivem ancestralmente em sua pequena fazenda, no interior do Missouri. Com 19 anos, em 1910, é enviado à universidade para estudar agronomia e reverter, posteriormente (essa era a expectativa dos pais), os conhecimentos adquiridos, no novo meio acadêmico. A ideia era trazer melhorias para a propriedade e a ampliar a produção do negócio familiar. No ambiente universitário, entretanto, contra todos os indícios e probabilidades, encanta-se pela literatura, troca de curso e segue um caminho impensado em sua vida. Ingressa em estudos de pós-graduação e torna-se professor na universidade que o formou.

A aridez do cotidiano da família e a escassez de recursos naquela fazenda tornam por si só o percurso de Stoner impressionante. O livro cobre o período das duas Grandes Guerras e vai até os anos 70. Stoner não se alista em nenhuma das ocasiões (o que o diferencia de John Williams), o que era muito mal visto por seus contemporâneos. Embora não tenha participado diretamente do conflito, é afetado pelo clima bélico, principalmente porque perde colegas e alunos. John Williams não aproveita o contexto individual de seu personagem para fazer grandes elucubrações sobre o momento político e social; tampouco envereda pelo caminho inverso, tratando diretamente das influências da guerra sobre o microcosmo do professor de literatura. Stoner passa por guerras, pela Grande Depressão, pela revolução sexual dos anos 60, pela contestação política dos 70, praticamente ileso, impávido, sempre tocando sua rotina, quase de maneira inabalável. Sair daquela fazenda no Missouri tão jovem e tão ignorante e ter conquistado um espaço e uma carreira em uma universidade, além de um casamento com a aristocrata Edith, parecem já ter sido muito, tarefas árduas demais, algo inimaginável em seu nascimento.

Sobre Edith Stoner, como disse Peter Cameron, no posfácio, talvez a esposa de Bill (ela é a única que o chama assim) merecesse um livro só para si. Personagem complexa e amargurada, filha de um banqueiro e de uma dona de casa, educada para casar-se e ter filhos, além de viver uma vida de luxos, não se adapta à união e à vida simples com Stoner, à maternidade, ao mundo de uma forma geral. Na verdade, Edith parece, por vezes, odiar seu marido, culpá-lo por todas as suas frustrações, responsabilizá-lo e, posteriormente, Grace, a filha do casal, por ser (somente) aquilo que ela conseguiu ser: esposa meio empobrecida de Stoner. Sim, é verdade que Edith, por seu lado, é terrivelmente cruel; mas Stoner, por seu turno, revela-se extremamente passivo. É como se seguisse um fluxo --- o fluxo da escrita de John Williams ---, sem questionamentos ou resistência. Apenas quando troca a agronomia pela literatura, quando escolhe Edith e a pede em casamento, quando se envolve numa contenda acadêmica, que lhe custa a progressão na carreira, e quando tem um caso extraconjugal com uma professora mais jovem, Katherine Driscoll, parece demonstrar alguma agência ou determinação.

Ainda assim, são momentos isolados, sem grandes reverberações, uma vez que Stoner sempre retorna ao caminho do meio, da plácida aceitação de seu status quo. Não faz as escolhas realmente necessárias. Aceita passivamente seu destino. A fraqueza mais imperdoável de Stoner, a meu ver, foi ter deixado Edith isolá-lo dentro de casa, envenenar a relação com a filha, Grace, tão frágil em sua vulnerabilidade, sem a proteção do pai. A redenção de Stoner, contudo, não falha e chega junto com sua morte (anunciada já na abertura do romance); aliás, um momento singular da narrativa, em que ele se questiona, como nós fazemos durante todo o livro: mas do que serviu tudo isso? Quem me tornei? Foi tudo em vão? Deixei alguma marca? Da mesma forma que oscilamos nas reflexões acerca do personagem, Stoner também oscila, tende a acreditar que teve uma existência nula, sem vitórias. Felizmente, consegue perdoar-se, resgatar-se, quase no último suspiro.

Acredito que tanto o livro quanto os personagens foram incompreendidos e daí a baixa receptividade à época do lançamento --- e, mesmo hoje, ainda há uma certa incompreensão, a meu ver, quando vejo resenhas salpicadas de rejeição e impaciência com relação ao caráter ordinário e talvez demasiado passivo de Stoner. Stoner não é Gatsby. Stoner é como qualquer um de nós. E, nesse caso, você se apaixonaria pelo comum, numa época em que se procura sempre o extraordinário sucesso? É difícil reconhecer o valor do personagem, do livro ou do autor. Mas está tudo lá, num texto transparente e instigante, sem construções frasais rebuscadas, com personagens constantes e bem construídos, com margem para que o leitor imagine desfechos e desenvolvimentos e até reflita sobre o sentido da vida (por que não?).

Por isso tudo, não poderia deixar de registrar o grande prazer que tive com essa leitura. Como não escrever sobre Stoner, um livro tão aclamado, quanto vilipendiado, em seu lançamento e hoje em dia? Precisava dizer que estou do lado dos aplausos, assim como o The Guardian que o considerou "the must-read novel of 2013" e a New Yorker que o classificou como "the Greatest American Novel You’ve Never Heard Of". Em 2020, Charles J Shields publicou a biografia de John Williams, "the man who wrote the perfect novel" – mais uma chance para prestar as devidas homenagens ao autor e sua obra.

 

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